quarta-feira, 5 de abril de 2017

Comunicação entre plantas, insetos e afins

Luciano Rezende *

A comunicação entre plantas é algo no mínimo instigante. Um tomateiro, ao ser atacado por um inseto, é capaz de liberar um odor (sinal químico) que pode ser captado por outro tomateiro vizinho. A partir daí, as plantas vizinhas poderão desencadear process


Em outras palavras, a primeira planta atacada consegue alertar a tempo suas companheiras de uma possível investida mais intensa que virá, preparando-as melhor para a resistência (que pode ser através da produção de substâncias tóxicas, espessamento de sua casca, alteração de pigmentos, etc.) ou até mesmo a um contra-ataque através dos inimigos naturais (insetos que predam outros insetos) que podem ser cooptados (pela produção de néctar e/ou pólen, por exemplo) e se tornarem importantes aliados nessa batalha.
Essa engenhosa e complexa rede de comunicação faz parte do processo evolutivo das plantas e dos insetos. Levou milhares de anos para se efetivar. Todavia, a natureza apresenta sua formidável dialética e os reveses ocasionados por uma contra-comunicação (também sofisticada) dos insetos, que co-evoluíram com as plantas e aperfeiçoaram seu sistema comunicativo, são também freqüentes e eficazes.
O sinal liberado pelas plantas também pode ser captado por outros insetos que irão decodificar a mensagem e obter a informação privilegiada sobre a localização e o estado em que se encontra sua refeição. Desse modo o tiro pode sair pela culatra.
Mas há outra rede de comunicação (produzida por outros tipos de insetos) que é de longe a mais impressionante. Mesmo em um intervalo de tempo histórico muito menor que o da escala evolutiva mencionada acima, o desenvolvimento dos sistemas e mercados de comunicação no Brasil impacta.
Embora os mecanismos sejam diferentes o objetivo é muito semelhante. Quando ameaçados, os donos da mídia emitem sinais aos seus vizinhos que passam a afinar o discurso contra o inimigo comum. E conseguem aliados de todas as ordens, da mesma classe.
Seus veículos de comunicação são bem mais complexos. Só o grupo Abril (ligado à MTV) tem mais de setenta. São emissoras e retransmissoras de TVs; rádios AM, FM, comunitárias, OT e OC; operadoras de TV a cabo, MMDS e DTH; canais de TV por assinatura e, é claro, os principais jornalões e revistas do naipe de uma Veja. Um arsenal completo para fazer frente a qualquer tipo de inimigo.
Principalmente em tempos de eleição essas redes de comunicação fazem um tremendo estrago. Quando são questionadas soltam logo um tipo de feromônio de defesa que consegue agregar todos os seus pares na defesa da idílica liberdade de expressão. E tome liberdade para atacar os movimentos sociais e os partidos de esquerda, difundir a pornografia, estimular o consumismo e tantos outros valores intrínsecos ao modo de vida capitalista.
Quantos candidatos(a) progressistas foram vítimas dessa comunicação predadora durante essas eleições? Construir a contra-comunicação é democratizar os meios de comunicação, socializar a informação e promover o respeito para com a diversidade de idéias.
Porém, antes de tudo é preciso pesquisar a fundo esse mecanismo de comunicação da grande mídia no Brasil e entender suas conseqüências nos interceptores, para melhor combater o monopólio midiático.
Para ajudar a estudar esse intricado aparato comunicativo da burguesia brasileira (e da sua sobrevivência) merece ser comemorado o lançamento de um importante banco de dados, pesquisas e estudos científicos sobre o tema, que vai ser divulgado integralmente no sítio denominado de “Donos da Mídia”, já em fase de conclusão pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom), que se baseia numa interessante metodologia de cruzamento de dados disponibilizados em diversas fontes de informação existentes sobre o assunto no Brasil.
Já navegando por suas páginas em construção, se pode ter acesso a informações valiosas, como as descritas acima, que nos ajudam a perceber o emaranhado jogo de interesses da comunicação no Brasil e a desmascarar os donos da mídia.

Vale a pena conferir a página (www.donosdamidia.com.br) e enveredar pelo estudo dessa máfia dos grandes meios de comunicação e sentir o podre odor que exalam, já que de insetos e plantas já sabemos bastante.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Por falar em insetos...


E se fôssemos todos Sergio Moro?

Luciano Rezende *

Ao me deparar com um cartaz esmeradamente confeccionado e exposto na Savassi (bairro nobre de Belo Horizonte) afirmando que “Somos todos Sérgio Moro” fiquei a imaginar o que significaria adotar esse estilo de vida (e de justiça).


 Sendo Sérgio Moro, teria que imediatamente me render àquela velha expressão popular que melhor simboliza e nos faz entender a dinâmica adotada pela turma da Lava Jato: “Aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei”.

Atualmente sou um simples professor. Mas recordo bem da época em que eu era coordenador de curso e dos grandes feitos que eu poderia ter realizado se, já naquela época, tivesse incorporado o espírito do Doutor Moro.

Logo na posse, para mostrar serviço aos meus colegas que me honraram com os seus votos, e imbuído do justo e legítimo sentimento de justiça, teria aplicado à risca a Lei nº 8.112 de 11/12/90 que diz respeito ao regime jurídico dos servidores públicos em geral.

Em especial a parte da lei que trata das proibições do servidor, deveria ter usado o inciso primeiro para ferrar aquele meu desafeto de “ausentar-se do serviço durante o expediente, sem prévia autorização do chefe imediato”.

Como teria sido bom vingar-me daquele petralha! Lembro-me bem do dia em que um aluno não o achou em sua sala e após um tempo descobri que ele estava acompanhando sua esposa numa consulta médica. E isso tudo sem me consultar. Um desaforo!

Poderia tê-lo pego também quando o mequetrefe levou o microscópio da faculdade para sua casa após aquela aula prática de biologia em praça pública, pois de acordo com o inciso II é proibido “retirar, sem prévia anuência da autoridade competente, qualquer documento ou objeto da repartição”.

Fico aqui me remoendo de ódio quando lembro da chance perdida de ter aberto um Processo Administrativo Disciplinar, quando esse meu adversário organizou uma festa surpresa para aquela lambisgoia da professora de fitopatologia que votou contra mim. O inciso V é muito claro ao condenar aquele que promove “manifestação de apreço ou desapreço no recinto da repartição”.

E o que falar do vacilo que eu dei ao deixá-lo escapar de ser enquadrado no inciso XII quando esse vagabundo foi homenageado pelos alunos e recebeu uma linda caneta personalizada de presente. De acordo com a lei, é vedado “receber propina, comissão, presente ou vantagem de qualquer espécie, em razão de suas atribuições”.

E por fim, que chance não aproveitada quando peguei o meliante em flagrante imprimindo um artigo de uma revista que nada tinha a ver com sua matéria na sala dos professores. Era a oportunidade que eu tinha de encaixá-lo no Inciso XVI que criminaliza “utilizar pessoal ou recursos materiais da repartição em serviços ou atividades particulares”.

Enfim, tive a chance de ser um Sérgio Moro quando fui Coordenador de Curso e agora só me resta perseguir algum aluno que está hierarquicamente abaixo de mim. Quem sabe começo por promover a delação premiada para poder desmascarar aquele maconheiro que senta na última fila e que tenho certeza que sempre cola em minhas provas.

E o bom de tudo isso é que nem preciso me preocupar com o principio básico da impessoalidade na Administração Pública, pois como somos todos Sérgio Moro me resguardarei em outra velha lei: “Pau que dá em Chico, não dá em Francisco”.